Lenacapavir: qual o futuro do medicamento com quase 100% de eficácia na prevenção do HIV

A recente aprovação do lenacapavir pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abre um novo capítulo na prevenção do HIV no Brasil. O medicamento injetável, aplicado apenas duas vezes por ano, apresentou eficácia próxima de 100% em estudos internacionais e já é considerado um dos avanços mais relevantes da última década.

Apesar da autorização para uso no país como profilaxia pré-exposição (PrEP), a incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não está em andamento. O tema envolve debates sobre custo, acesso, política pública e impacto na estratégia nacional de prevenção.

A seguir, entenda o cenário em 10 tópicos.

1. O que é o lenacapavir

O lenacapavir é um antirretroviral de longa duração desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences. Ele é usado como PrEP e administrado por injeção apenas duas vezes ao ano, o que representa uma mudança significativa em relação aos comprimidos de uso diário.

O principal diferencial está na duração da proteção, que pode facilitar a adesão e reduzir falhas no uso, especialmente entre pessoas que têm dificuldade em manter o tratamento oral contínuo.

2. O medicamento pode ser incorporado ao SUS?

Sim, mas isso ainda não está em curso. A aprovação pela Anvisa autoriza o uso no Brasil, mas não garante a oferta na rede pública.

Para chegar ao SUS, é necessário um pedido formal de incorporação e análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que avalia eficácia, segurança e custo-benefício. Segundo o Ministério da Saúde, até o momento não há solicitação em andamento.

3. O preço é hoje o principal entrave?

Sim. O custo do lenacapavir é apontado como o maior obstáculo para sua adoção no SUS.

Nos Estados Unidos, o medicamento custa entre US$ 25 mil e US$ 28 mil por ano para uso como PrEP, podendo chegar a mais de US$ 40 mil em outras indicações. Estudos indicam que versões genéricas poderiam custar menos de US$ 50 por ano, mas o Brasil ficou fora dos acordos de licenciamento voluntário.

4. O Brasil tem histórico de negociação nesse tipo de caso?

Sim. Desde os anos 1990, o país construiu uma política de acesso universal ao tratamento do HIV, com forte atuação em negociações de preços, produção nacional e parcerias tecnológicas.

Recentemente, a Gilead assinou um memorando de entendimento com a Fiocruz para avaliar possibilidades de cooperação, mas o acordo ainda não garante produção local nem redução de custos.

5. Quem poderia ser priorizado no SUS?

Caso seja incorporado, especialistas avaliam que o lenacapavir não seria ofertado de forma ampla no início.

A tendência seria priorizar pessoas em maior vulnerabilidade ou com dificuldade de adesão à PrEP oral, como aquelas que enfrentam barreiras sociais, logísticas ou estruturais no acesso regular aos serviços de saúde.

6. O lenacapavir substituiria a PrEP oral?

Não. A avaliação predominante é que o medicamento não substituiria a PrEP oral, que já é uma estratégia consolidada e gratuita no SUS.

O lenacapavir funcionaria como uma opção adicional dentro da prevenção combinada, ampliando o leque de escolhas conforme o perfil do usuário e as condições do sistema de saúde.

7. Como o lenacapavir age no organismo?

O medicamento atua no capsídeo do HIV, uma estrutura que protege o material genético do vírus. Ao interferir nessa “carcaça”, o lenacapavir atrapalha várias etapas do ciclo de infecção ao mesmo tempo.

Essa ação prolongada permite que o bloqueio do vírus se mantenha por meses no organismo, viabilizando a aplicação semestral.

8. Qual é a eficácia comprovada?

Estudos clínicos internacionais mostraram eficácia próxima de 100% na prevenção do HIV-1. Em um dos principais ensaios, nenhuma das mais de 2 mil mulheres que receberam o lenacapavir contraiu o vírus.

Outros estudos, incluindo populações diversas em países como Brasil, África do Sul e Estados Unidos, indicaram redução de até 96% no risco de infecção em comparação com a ausência de PrEP.

9. O que dizem os organismos internacionais?

O Unaids e a Organização Mundial da Saúde classificaram o lenacapavir como um avanço relevante na prevenção do HIV.

A OMS recomenda o medicamento como opção adicional de PrEP, enquanto o Unaids destaca que o impacto global dependerá do acesso equitativo e de estratégias para redução de custos.

10. O que é essencial saber sobre HIV e Aids

O HIV é o vírus que causa a Aids e ataca o sistema imunológico. Pessoas em tratamento adequado, com carga viral indetectável, não transmitem o vírus por via sexual.

A prevenção combinada — que inclui PrEP, preservativos, testagem e tratamento — segue sendo a forma mais eficaz de controlar a epidemia enquanto não há uma vacina disponível.