De Caxias do Sul à Serra Catarinense: engenheiro passa 32 anos esperando para realizar o sonho de produzir vinho na família
Foto: Divulgação/ UNITVSC

Saul Paulo Bianco tinha um sonho desde criança. Cresceu entre parreirais e pipas de vinho na família de descendentes italianos radicados em Caxias do Sul, estudou agronomia em Porto Alegre exatamente para montar uma vinícola, e então, no último semestre da faculdade, aceitou uma proposta de emprego em uma grande empresa e ficou 32 anos longe do vinhedo.

Mas nunca deixou de estudar, visitar regiões produtoras e amadurecer o projeto. Quando se aposentou, foi para a Itália, fez especialização em enologia, voltou ao Brasil e construiu na Serra Catarinense a Leone di Venezia, uma das vinícolas mais premiadas da região.

“Esse desvio de rota postergou o sonho, mas eu acho que aprimorou. Porque eu fui estudando muito, as viagens sempre ligadas a regiões vinícolas, visitar vinícolas, aprender o que estava sendo feito em outras regiões”, conta Saul.

A história da família com o vinho começa ainda na Itália. Os bisavós de Saul migraram para o Brasil em 1892, vindos da região de Vicenza, próxima a Veneza, e trouxeram a tradição de cultivar uva e produzir vinho. Seu avô, ainda criança durante a migração, manteve um parreiral próprio em Caxias do Sul e chegou a fabricar pipas, os grandes barris de madeira usados no armazenamento do vinho.

O pai também tinha seu parreiral e produzia vinho para consumo familiar. “Minha formação foi muito dentro desse ambiente do vinho, da uva. Sempre familiar”, recorda.

O nome da vinícola é uma homenagem a essa origem. O leão alado é o símbolo de São Marcos, padroeiro de Veneza e do Vêneto, a região italiana de onde veio a família. “É uma homenagem ao bisavô, ao avô, ao pai, ao trabalho dos imigrantes que vieram em momentos difíceis e tiveram que desbravar toda aquela região. Verdadeiros heróis”, diz Saul.

A busca pelo terroir certo

Antes de fixar o empreendimento, Saul e a esposa visitaram mais de 30 áreas na Serra Catarinense em busca do local ideal. Em 2007, compraram a propriedade em São Joaquim, a 1.300 metros de altitude. Em 2008, começaram a plantar as primeiras mudas, todas de variedades italianas, importadas diretamente da Itália, da maior produtora de mudas do mundo, a Rauscedo.

O processo de importação não foi simples. Na primeira tentativa, as mudas foram barradas por uma bactéria identificada na quarentena e precisaram voltar para a Itália. “Os italianos ficaram muito bravos. Do mesmo lote de mudas foram plantas para os Estados Unidos e para a Argentina sem nenhum problema”, lembra. Na segunda tentativa, Saul contratou uma empresa especializada em importação de plantas, que conhecia todos os trâmites burocráticos e garantiu a chegada das mudas com segurança.

Ao todo, foram importadas 26 variedades de uvas italianas. E aí começou o experimento e as surpresas.

O que funcionou e o que não funcionou

A altitude de 1.300 metros impõe desafios que nem os especialistas italianos conseguiram prever com precisão. A variedade Nebbiolo, uva nobre responsável pelo famoso Barolo na Itália, foi uma das primeiras importadas, e uma das maiores decepções.

“Durante oito anos, cinco deles com produção, nunca deu uma safra boa. O problema é que no primeiro calorzinho depois do inverno ela começa a brotar, aí vêm as geadas tardias e queima tudo”, explica Saul.

Outras variedades não completavam bem a maturação ou tinham produção muito baixa por causa do clima. Das 26 variedades testadas ao longo dos anos, 11 se consolidaram e hoje produzem vinhos de qualidade reconhecida.

As duas tintas que melhor se adaptaram foram a Sangiovese (uva da Toscana, responsável pelo Chianti), e a Montepulciano. Juntas, ocupam 2,2 dos 5 hectares plantados na propriedade. “São as principais que nós temos. São as duas tintas que se adaptaram muito bem aqui”, afirma.

Entre as raridades produzidas pela Leone di Venezia está o Refosco del Peduncolo Rosso, uma uva tradicional do Vêneto que, comercialmente, só a vinícola produz no Brasil. “São 600, 900 garrafas por safra. É uma coisa muito pequena”, reconhece Saul. No ano passado, esse vinho ganhou o prêmio de melhor vinho tinto de outras castas em avaliação nacional.

O ciclo da safra

Com o inverno em pleno andamento, os parreirais da Leone di Venezia estão em dormência, sem folhas, apenas os galhos aguardando o frio acumular horas para a próxima brotação. É justamente agora que começa a preparação para a safra de 2027.

“A gente começa a dizer que a safra 27 está começando agora, na época da poda. Então, ela vai começar a brotar, a gente vai cuidar, vão sair os cachinhos, vai crescer, vai mudar de cor, vai amadurecer e a gente vai colher”, explica Saul. A colheita começa em março e vai até abril ou maio, dependendo da variedade.

Uma das produções mais especiais da vinícola é um vinho elaborado a partir de uvas colhidas bem maduras e colocadas a secar, um processo chamado de apacimento em italiano, que transforma as uvas em uma espécie de passa. “Ela concentra, perde a água, concentra os açúcares, os aromas. E depois vai para a fermentação com bastante açúcar, mais álcool e todos aqueles aromas da complexidade que esse processo permitiu. Vira um produto completamente diferente”, descreve.

Prêmios e indicação geográfica

A Leone di Venezia hoje comercializa 14 rótulos e tem acumulado premiações nas principais avaliações nacionais. Boa parte dos vinhos carrega o selo de Indicação Geográfica dos Vinhos de Altitude de Santa Catarina, uma certificação que exige produção acima de 900 metros de altitude, seguimento de regras específicas de cultivo e elaboração, e aprovação em análises químicas e degustação sensorial.

Para Saul, esse reconhecimento ainda é subestimado pelo setor. “Na Itália e na França, quando se tem uma indicação geográfica, fazem uma festa muito grande e isso valoriza o vinho. O consumidor reconhece que é um produto que seguiu uma regra diferente para ter esse reconhecimento. Eu acho que aqui a gente tem que se preocupar mais em valorizar esses selos”, defende.

Confira a entrevista completa:


Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.