Em 28 de julho de 1831, um homem que havia chegado a Desterro como capitão do 2º Corpo de Artilharia fez algo que mudaria para sempre a história de Santa Catarina: colocou em funcionamento uma prensa de impressão e publicou o primeiro número d’O Catharinense, o primeiro jornal da província. Esse homem era Jerônimo Francisco Coelho. E tinha nascido em Laguna.
Em Laguna, a cerimônia que celebra o Dia da Imprensa Catarinense acontece em 28 de julho, na Praça Jerônimo Coelho, que leva o nome do patrono em sua homenagem. Neste ano, o evento está marcado para as 10h.
Uma vida que não cabe em um cargo
Jerônimo Francisco Coelho nasceu em Laguna em 30 de setembro de 1806, segundo filho do major Antônio Francisco Coelho e de Francisca Lina do Espírito Santo Coelho, neto do capitão-mor de Laguna. Em 1809, a família mudou-se para a Corte do Império. Em pouco tempo perdeu o pai e um tio, cabendo unicamente à sua mãe a tarefa de educar ele e o irmão mais velho, Antônio Francisco Coelho.
Em dezembro de 1827, casou-se com Emília Carolina da Costa Barros. Da união nasceram Jerônimo Francisco Coelho Júnior, José Francisco Coelho e mais uma filha. Emília faleceu em 30 de agosto de 1854.
A trajetória política e administrativa de Jerônimo Coelho foi extraordinária. Foi deputado à Assembleia Legislativa Provincial de Santa Catarina em seis legislaturas, entre 1835 e 1847. Presidiu as províncias do Grão-Pará (1848–1850) e do Rio Grande do Sul (1856–1857). Em 2 de fevereiro de 1844, foi simultaneamente ministro da Marinha e da Guerra do Brasil, no quarto gabinete ministerial de D. Pedro II, retornando ao cargo de ministro da Guerra em 1857. Foi também conselheiro imperial. Atuou com determinação para estabelecer as condições de paz com os revoltosos farroupilhas.
Em 1846, demarcou as terras da futura colônia Dona Francisca, que viria a ser Joinville, e parte do território do distrito de Parati, hoje Araquari. Recebeu as condecorações da Imperial Ordem de São Bento de Avis e da Imperial Ordem da Rosa. É considerado, segundo o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, o mais destacado político catarinense do século XIX.
Jerônimo Coelho faleceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1860.
O jornal, a prensa e o ato que fundou a imprensa catarinense
No contexto político agitado que se seguiu à abdicação de D. Pedro I em 1831, Jerônimo Coelho introduziu na província um prelo, aparelho manual de impressão gráfica. Com ele, publicou a primeira edição O Catharinense em 28 de julho de 1831. No ano seguinte, lançaria ainda um segundo periódico, O Expositor. Foi também membro fundador da primeira loja maçônica de Santa Catarina, em Desterro.
A prensa utilizada para imprimir O Catharinense está preservada no Museu Anita Garibaldi, em Laguna. A cidade que viu nascer o fundador da imprensa catarinense guarda também a ferramenta com a qual ele fez história.
Para Márcio Carneiro, jornalista com cinco décadas de profissão e referência da imprensa lagunense, Jerônimo Coelho é uma figura que ainda orienta quem escolheu esse ofício. “Em cinco décadas de jornalismo aprendi que o jornal é muito mais do que um veículo de notícias. Ele é um guardião da memória da cidade. Todos os dias registramos fatos que, com o passar do tempo, deixam de ser apenas notícias e passam a fazer parte da história de Laguna. Muitos dos acontecimentos que hoje lembramos só permanecem vivos porque foram registrados pelos jornais. Nos 350 anos de Laguna, acredito que a imprensa continua tendo a mesma missão: informar com responsabilidade, preservar a verdade dos fatos e deixar para as futuras gerações um retrato fiel do nosso tempo”, afirma.
André Luiz, também jornalista lagunense, destaca a dimensão política do legado de Jerônimo Coelho. “Jerônimo Coelho é motivo de orgulho para Santa Catarina e, sobretudo, para Laguna, cidade onde nasceu e iniciou uma trajetória que marcou a história da comunicação. Seu pioneirismo fez dele uma referência do jornalismo para nós até hoje, deixando um legado que vai muito além da imprensa: sua atuação se confunde com a defesa da liberdade de expressão, da informação e da construção do pensamento crítico”, diz.








