O Brasil precisa parar de escolher o inimigo errado
Ildo Silva da Silva*
Há uma narrativa que se repete há décadas no Brasil: a de que o empresário é o principal responsável pelas dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores. É uma visão simplista, emocional e conveniente. Mas está longe de explicar a realidade.
Quem gera empregos, investe, assume riscos e mantém empresas abertas sabe que a conta é muito mais complexa.
O trabalhador merece salário digno, respeito e direitos. Isso é indiscutível. Mas também é preciso reconhecer que não existe emprego sem empresa, assim como não existe empresa sem alguém disposto a investir patrimônio, assumir riscos e enfrentar um ambiente econômico frequentemente hostil.
O verdadeiro debate não deveria colocar empregado e empregador em lados opostos. Ambos dependem um do outro para produzir riqueza. O conflito permanente apenas enfraquece a economia e reduz as oportunidades para todos.
Outro ponto raramente discutido é a carga tributária incidente sobre a folha de pagamento. Antes mesmo de o salário chegar ao bolso do trabalhador, uma parcela significativa dos custos já foi destinada ao pagamento de tributos e contribuições sociais. Além disso, as empresas recolhem impostos sobre faturamento, lucro, consumo e diversas outras obrigações acessórias que tornam o ambiente de negócios um dos mais complexos do mundo.
É justamente essa arrecadação que financia a máquina pública. São os impostos pagos por empresas e trabalhadores que sustentam escolas, hospitais, segurança pública, infraestrutura, Previdência e o funcionamento dos três Poderes da República.
A pergunta que precisa ser feita é outra: se a arrecadação brasileira está entre as maiores do mundo em proporção ao tamanho da economia, por que tantos serviços públicos continuam entregando resultados tão abaixo do esperado?
O problema parece estar menos em quem produz riqueza e mais na forma como ela é administrada.
O Brasil convive há anos com desperdícios, baixa eficiência administrativa, estruturas públicas excessivamente caras e uma máquina estatal que frequentemente consome recursos sem devolver à sociedade serviços compatíveis com o volume de impostos arrecadados. Também é legítimo discutir o peso das despesas obrigatórias, incluindo remunerações elevadas existentes em diferentes carreiras dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, sempre com base em dados públicos e transparência.
Enquanto o foco permanecer em transformar o empreendedor no vilão da história, pouca atenção será dada às reformas que realmente poderiam aumentar a produtividade, simplificar o sistema tributário, melhorar a qualidade do gasto público e estimular a geração de empregos.
Os números ajudam a desmontar alguns estereótipos.
Segundo dados apresentados pela especialista em comportamento organizacional Veridiana Cavalieri, cerca de 30,5 milhões de brasileiros possuem um negócio próprio. Desse total, aproximadamente 73% são microempreendedores individuais (MEIs) e 53% também trabalham com carteira assinada, utilizando o empreendedorismo como complemento de renda. Ainda de acordo com a especialista, 88% iniciaram seus negócios por necessidade, geralmente investindo economias próprias ou recursos familiares.
Esses dados mostram que, para a maioria dos brasileiros, empreender não é sinônimo de riqueza. É uma tentativa de sobreviver, gerar renda e construir um futuro melhor.
Outro dado relevante é que, conforme informações citadas por Cavalieri com base no Sebrae, 62% das empresas encerram suas atividades antes de completar cinco anos, principalmente por falta de capital de giro, dificuldades na gestão financeira e vendas insuficientes. Isso revela que empreender no Brasil está muito mais próximo da persistência do que do privilégio.
Defender o empresário que cumpre a lei, paga impostos, registra seus funcionários e enfrenta diariamente a burocracia não significa ser contra o trabalhador. Pelo contrário.
É defender justamente quem mantém milhões de empregos, movimenta a economia e gera os recursos que financiam o próprio Estado.
O trabalhador não é inimigo do empresário.
O empresário não é inimigo do trabalhador.
Ambos são, na verdade, os maiores financiadores de um Estado que precisa entregar serviços públicos mais eficientes, mais transparentes e compatíveis com o enorme esforço tributário exigido da sociedade brasileira.
Talvez esteja na hora de mudar o foco da discussão.
Porque, enquanto continuarmos procurando o culpado errado, os verdadeiros problemas continuarão sem solução.
*Ildo Silva da Silva é jornalista e Diretor da UNITVSC.




