Advogado criminalista explica atuação da defesa e comenta debates sobre Justiça no programa Linha de Fogo
Foto: Reprodução/ UNITVSC

O papel do advogado criminalista, os desafios do sistema de Justiça brasileiro e assuntos que frequentemente provocam debates na sociedade estiveram entre os temas da entrevista com o advogado Jardel Luciano, no programa Linha de Fogo desta quarta-feira (4).

Ao longo da conversa com o apresentador Haroldo Silva, o Dura, o profissional explicou aspectos da atuação da defesa criminal, comentou o funcionamento dos processos judiciais e abordou questões relacionadas à legislação penal e à execução das penas.

Atuação do advogado criminalista vai além dos crimes de grande repercussão

Um dos primeiros assuntos discutidos foi a preparação necessária para o exercício da advocacia criminal. Jardel explicou que o profissional precisa manter os estudos constantes, especialmente sobre decisões dos tribunais superiores, conhecidas como jurisprudência, que ajudam a orientar a condução dos processos.

O advogado também comentou a importância da argumentação e da capacidade de comunicação nos julgamentos, principalmente no Tribunal do Júri. Segundo ele, embora a técnica jurídica seja fundamental, a oratória também contribui para apresentar os argumentos diante dos jurados.

Outro ponto abordado foi o preconceito relacionado à expressão “advogado de porta de cadeia”. Jardel explicou que o termo costuma ser utilizado de maneira pejorativa, mas defendeu a importância da presença do advogado criminalista nas delegacias e durante diligências, garantindo assistência jurídica às pessoas envolvidas em investigações.

Condenações injustas e presunção de inocência

Durante a entrevista, o advogado também reconheceu a possibilidade de erros judiciais e condenações injustas. Ele destacou que falhas na análise de provas, reconhecimentos equivocados e dificuldades na produção de elementos defensivos podem comprometer a avaliação de determinados processos.

A conversa avançou para a presunção de inocência e o julgamento antecipado de pessoas investigadas ou presas. Jardel ressaltou que a existência de uma prisão em flagrante não significa, por si só, que alguém tenha sido definitivamente condenado.

O profissional explicou ainda que a defesa criminal não se limita a buscar absolvições. Em determinadas situações, o trabalho do advogado consiste em assegurar direitos, questionar irregularidades e buscar a aplicação de uma pena adequada ao caso.

Justiça brasileira, impunidade e funcionamento das audiências de custódia

Outro tema central foi a percepção de impunidade no país. Jardel afirmou que, apesar de reconhecer problemas no sistema de Justiça, considera que a estrutura judicial brasileira funciona dentro das regras estabelecidas. Para ele, parte da insatisfação da população está relacionada à demora dos processos e às possibilidades de recursos previstas na legislação.

O advogado também explicou a finalidade das audiências de custódia, realizadas após prisões em flagrante, e destacou sua importância para avaliar a necessidade de manutenção da prisão e prevenir possíveis abusos contra pessoas detidas.

Na discussão sobre a atuação da defesa, Jardel argumentou que o advogado criminalista exerce uma função essencial para garantir que o Estado respeite os direitos previstos na Constituição e na legislação, inclusive em processos envolvendo crimes graves.

Feminicídio e mudanças na legislação penal

A entrevista também abordou o crescimento da visibilidade dos casos de violência contra mulheres e feminicídio. Na avaliação do advogado, a maior divulgação e os mecanismos de proteção e denúncia contribuem para que situações antes ocultadas cheguem às autoridades.

Jardel citou a Lei Maria da Penha e as mudanças na legislação como instrumentos de proteção às mulheres. O assunto foi discutido em meio à reflexão sobre a evolução das normas jurídicas e a necessidade de acompanhar as transformações da sociedade.

Maioridade penal, saidinhas e auxílio-reclusão

No último bloco, o programa discutiu temas que frequentemente aparecem nos debates públicos sobre segurança e sistema penitenciário.

Sobre a redução da maioridade penal, Jardel demonstrou preocupação com a falta de estrutura do sistema prisional e afirmou que o encarceramento de adolescentes, sem condições adequadas de recuperação e reintegração, pode contribuir para o aumento da violência. Ele defendeu a educação como um caminho importante para ampliar oportunidades e prevenir o envolvimento de jovens com a criminalidade.

Em relação às saídas temporárias de presos, o advogado explicou a lógica da progressão de regimes e defendeu a possibilidade de reintegração gradual à sociedade, como parte do processo de ressocialização. Também comentou a utilização do monitoramento eletrônico e a necessidade de fiscalização.

Outro assunto foi o auxílio-reclusão. Jardel esclareceu que o benefício previdenciário é destinado aos dependentes do segurado que cumpre os requisitos legais, e não diretamente ao preso. Segundo ele, a finalidade é auxiliar a família diante da perda de renda provocada pelo encarceramento.

Ao final, o advogado também comentou a afirmação de que a cadeia pode funcionar como uma “faculdade do crime”, relacionando o problema à convivência entre pessoas envolvidas em diferentes níveis de criminalidade dentro do sistema penitenciário.