Jornalismo: a liberdade de informar não dispensa a formação profissional
Por Ildo Silva da Silva
Qualquer cidadão tem o direito de escrever, manifestar suas opiniões, analisar acontecimentos e participar do debate público. Essa liberdade é uma conquista que precisa ser preservada, prevista na Constituição Federal. Mas será que o direito de expressão pode ser confundido com o preparo necessário para exercer profissionalmente o jornalismo?
Em 17 de junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o diploma universitário específico não poderia ser exigido como condição para o exercício da profissão de jornalista. Na minha avaliação, o Supremo errou.
Errou não por reconhecer a liberdade de expressão, mas por não distinguir adequadamente esse direito fundamental da formação necessária para o exercício cotidiano de uma atividade que interfere diretamente na vida das pessoas e no funcionamento da sociedade.
Um médico precisa estudar para exercer a Medicina. Um engenheiro necessita de formação para assumir responsabilidades técnicas. Um advogado precisa conhecer o Direito para atuar profissionalmente. Evidentemente, cada profissão possui características próprias e exigências legais diferentes. Mas por que a formação específica do jornalista, responsável por apurar fatos e acontecimentos, interpretar informações e levá-las ao conhecimento público, deveria ser considerada dispensável?
Não estou defendendo que apenas jornalistas diplomados possam escrever em jornais, revistas, portais, televisão ou rádios, ou outros meios de comunicação. Pelo contrário. A participação de especialistas, professores, escritores, economistas, juristas, médicos e cidadãos de diferentes áreas enriquece o debate público.
Colunas de opinião, artigos técnicos e textos especiais devem continuar abertos à pluralidade de conhecimentos e experiências. A imprensa não pode ser um espaço fechado em si mesmo.
Entretanto, considero que o trabalho diário de uma redação, especialmente a produção de notícias, reportagens, entrevistas e investigações, deve ser atribuição de jornalistas profissionais, preparados em cursos superiores de qualidade.
E não estou falando de qualquer formação universitária.
Defendo escolas modernas de jornalismo, capazes de acompanhar as transformações tecnológicas sem abandonar os fundamentos humanísticos da profissão. Instituições que ensinem técnicas de reportagem, redação, edição, investigação e produção audiovisual, mas que também proporcionem conhecimentos sólidos de Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, História, Ciência Política, Economia, Direito e outras áreas essenciais à compreensão da sociedade.
O jornalista precisa conhecer o ser humano antes de pretender interpretar seus conflitos.
A Filosofia contribui para o pensamento crítico e a reflexão ética. A Antropologia ajuda a compreender diferenças culturais e comportamentos sociais. A Psicologia oferece instrumentos para entender relações humanas, emoções e formas de comunicação. A Sociologia permite analisar estruturas sociais, desigualdades e transformações coletivas.
Esses conhecimentos não são acessórios. Fazem parte da formação de um profissional que precisa interpretar acontecimentos complexos, lidar com pessoas em situações de vulnerabilidade, compreender conflitos e reconhecer as consequências sociais daquilo que publica.
Uma escola de jornalismo não deve apenas ensinar alguém a escrever uma notícia. Deve ensinar a pensar, perguntar, investigar, interpretar e reconhecer os limites do próprio conhecimento.
E, acima de tudo, deve ensinar a apurar.
A apuração é a primeira responsabilidade do jornalista.
Antes da manchete, antes da fotografia, antes da edição e antes da publicação, existe uma obrigação que não pode ser negociada: verificar os fatos.
Receber uma informação não significa ter uma notícia. Ouvir uma denúncia não significa comprovar uma acusação. Reproduzir uma declaração oficial não significa esclarecer um acontecimento.
O trabalho jornalístico começa justamente quando o profissional se recusa a aceitar a primeira versão como verdade definitiva.
É preciso perguntar quem está falando, por que está falando, quais interesses podem estar envolvidos, que documentos sustentam a informação e quais pessoas ainda precisam ser ouvidas.
É preciso desconfiar, inclusive, daquilo que parece evidente.
A sociedade vive um momento em que praticamente todos podem produzir e distribuir conteúdos. Um telefone celular permite registrar acontecimentos e divulgar informações para milhares de pessoas em poucos segundos. As redes sociais ampliaram extraordinariamente a circulação de notícias, opiniões, boatos e acusações.
Essa democratização da comunicação possui aspectos positivos. Permite que acontecimentos antes ignorados ganhem visibilidade e que diferentes vozes participem da discussão pública.
Mas também trouxe um desafio: a velocidade da divulgação frequentemente supera o cuidado com a verificação.
Nesse ambiente, qual é a melhor vacina contra a notícia falsa?
Continuo convencido de que é o jornalismo profissional, sustentado por uma apuração rigorosa.
Não existe tecnologia capaz de substituir integralmente o discernimento de um repórter bem preparado. Ferramentas digitais e inteligência artificial podem contribuir para pesquisar documentos, organizar dados, transcrever entrevistas e identificar inconsistências. Mas a responsabilidade de verificar, interpretar e decidir o que pode ser publicado permanece humana.
A qualidade de uma reportagem não deve ser medida apenas pelo número de acessos, pela repercussão nas redes sociais ou pela rapidez com que chega ao público. Deve ser medida, sobretudo, pela consistência das informações que apresenta.
Há outro aspecto que considero fundamental na formação do jornalista: a capacidade de não escolher antecipadamente um lado.
Todo profissional possui convicções pessoais, valores e uma visão de mundo. Não existe ser humano completamente desprovido de referências culturais, políticas ou filosóficas. Entretanto, o jornalista precisa compreender que suas preferências não podem determinar o resultado de uma investigação.
Quando um repórter inicia seu trabalho decidido a defender ou condenar alguém, corre o risco de selecionar apenas as informações que confirmam aquilo em que já acredita.
A reportagem deixa de ser uma busca pelo esclarecimento dos fatos e passa a ser uma tentativa de justificar uma conclusão previamente estabelecida.
Isso compromete a essência do jornalismo.
Ouvir os envolvidos, confrontar declarações, consultar documentos e examinar evidências são procedimentos que devem anteceder qualquer conclusão. E ouvir diferentes versões não significa atribuir a todas elas a mesma credibilidade. Uma afirmação comprovadamente falsa não pode receber o mesmo tratamento de um fato sustentado por evidências.
O compromisso do jornalista não deve ser com a igualdade artificial entre versões, mas com a honestidade da apuração.
É preciso ter independência para investigar aqueles com quem concordamos e reconhecer fatos que contrariem nossas próprias convicções.
Essa postura exige conhecimento, maturidade intelectual e formação ética. Não se desenvolve apenas com o domínio da escrita ou com a habilidade de utilizar equipamentos e plataformas digitais.
Por isso, a universidade continua sendo tão importante.
Naturalmente, o diploma não transforma automaticamente alguém em bom jornalista. Conhecemos profissionais sem formação específica que construíram trajetórias respeitáveis e contribuíram significativamente para a imprensa brasileira. Também sabemos que existem diplomados que não correspondem às responsabilidades da profissão.
Mas as exceções não devem servir de argumento para dispensar a formação.
Ao contrário, deveriam estimular o aperfeiçoamento permanente dos cursos de Jornalismo, aproximando a universidade das redações e das necessidades reais da sociedade.
Precisamos de escolas que valorizem a reportagem de rua, a investigação documental, o contato com as comunidades, a leitura crítica, a ética profissional e a compreensão das novas tecnologias.
Precisamos de professores que conheçam a realidade das redações e de profissionais que reconheçam a importância do conhecimento acadêmico.
O jornalismo não pode ser reduzido a uma atividade de produção de textos. Escrever bem é importante, mas não basta. Saber entrevistar, interpretar informações, reconhecer manipulações, respeitar direitos individuais e compreender o impacto de uma publicação são competências igualmente necessárias.
Uma notícia mal apurada pode destruir uma reputação, prejudicar uma investigação, provocar injustiças e influenciar decisões coletivas. Uma reportagem responsável pode revelar irregularidades, esclarecer conflitos, proteger direitos e contribuir para o aperfeiçoamento das instituições.
É justamente por reconhecer esse poder que considero indispensável a formação profissional.
O jornalista não é proprietário da verdade. Sua obrigação é procurá-la com honestidade, método e responsabilidade, sabendo que novas informações podem exigir correções e mudanças de entendimento.
Também não é juiz, promotor, advogado de defesa ou representante de interesses políticos e econômicos quando atua como repórter. Seu papel é investigar e apresentar os fatos de maneira suficientemente clara e contextualizada para que a sociedade possa formar suas próprias conclusões.
A opinião tem seu espaço legítimo, especialmente nos artigos e nas colunas assinadas. Mas a reportagem não pode ser uma opinião disfarçada de notícia.
A liberdade de expressão pertence a todos. O exercício profissional do jornalismo, em minha compreensão, deveria continuar associado a uma formação superior específica, moderna, crítica e comprometida com o interesse público.
Não se trata de estabelecer uma reserva de mercado. Trata-se de reconhecer que a sociedade merece receber informações produzidas por pessoas preparadas para enfrentar a complexidade dessa responsabilidade.
O Supremo Tribunal Federal retirou a obrigatoriedade do diploma. Continuo considerando aquela decisão equivocada. Não porque o conhecimento esteja restrito às universidades, mas porque a formação profissional representa uma garantia adicional de qualidade que o país deveria fortalecer, e não dispensar.
Em um mundo no qual publicar se tornou fácil, apurar tornou-se ainda mais importante.
A sociedade não precisa apenas de pessoas capazes de contar histórias. Precisa de jornalistas preparados para descobrir o que realmente aconteceu.
E essa diferença começa na formação, consolida-se na experiência e se revela, todos os dias, na qualidade da apuração.





