Enólogo destaca crescimento dos vinhos de altitude e aposta em experiências para aproximar turistas da produção da Serra Catarinense
Foto: Divulgação/ UNITVSC

A produção de vinhos de altitude vem ganhando espaço na Serra Catarinense e contribuindo para transformar a relação entre o setor vitivinícola, o turismo e a própria identidade dos municípios da região. Para o enólogo Edson Andrade, da Vinícola Altopiano, o desenvolvimento desse mercado também está diretamente ligado à formação de profissionais especializados e à busca por experiências capazes de aproximar o consumidor da história por trás de cada rótulo.

Aos 35 anos, Edson acumula 16 anos de atuação no mundo do vinho. Sua trajetória começou ainda no ensino médio, quando ingressou na primeira turma do curso técnico de nível médio em Viticultura e Enologia criado pelo Governo de Santa Catarina em uma escola estadual de São Joaquim. A formação foi concluída em 2009 e, no ano seguinte, ele começou a atuar em vinícolas.

Na sequência, cursou a graduação em Enologia em Urupema, também integrando a primeira turma do curso. Para Edson, a formação de profissionais locais teve papel importante na consolidação dos projetos de vinhos de altitude que surgiram na Serra Catarinense.

“Ele veio como um subsídio para que desse, devido à formação para os profissionais locais, para que conseguissem operar os projetos que estavam surgindo na época. Existia um boom muito grande na Serra, naquela ocasião, da primeira leva de investidores que teve aqui em São Joaquim e arredores, das vinícolas em formação. E você precisaria de pessoas capacitadas para isso”, explica.

Segundo o enólogo, a expansão da vitivinicultura também trouxe uma nova possibilidade para a economia e para o turismo regional. Tradicionalmente conhecida pela produção de maçãs, a Serra Catarinense passou a incorporar o vinho como mais um produto de identidade e valor agregado.

Para Edson, no entanto, maçã e vinho podem dividir o protagonismo regional. “Eu acho que há espaço para os dois produtos”, afirma. Ele destaca que a qualidade da maçã produzida na região já representa um importante caso de sucesso nacional, enquanto o vinho agrega uma nova dimensão, especialmente pela relação com o turismo e pela experiência proporcionada ao visitante.

“O vinho traz esse glamour, muda o comportamento, as pessoas enamoram, se apaixonam, e o vinho é esse componente no relacionamento humano. Isso também é um forte componente na projeção da produção local”, comenta.

O turista em busca de experiências

Na avaliação do enólogo, o visitante que chega às vinícolas atualmente busca mais do que simplesmente comprar ou consumir uma garrafa de vinho. A experiência se tornou parte importante da relação entre o consumidor e o produto.

“O turista busca uma coisa chamada experiência. Ele não quer simplesmente chegar e tomar uma garrafa de vinho”, afirma Edson.

Nesse contexto, conhecer a história da vinícola, compreender o processo de elaboração, descobrir a origem das variedades utilizadas e combinar o vinho com a gastronomia são elementos que ajudam a construir uma experiência mais completa.

“Ele quer um atendimento aconchegante, quer entender qual é o diferencial que a empresa consegue entregar. Quer o viés de alimentação junto, quer entender a história, o porquê da elaboração dos rótulos, o porquê da escolha dessas variedades de uva no portfólio. Então é tudo voltado, nesse sentido, para a experiência”, explica.

A visita aos espaços de produção também contribui para aproximar o público do processo. Para Edson, conhecer as etapas pelas quais a uva passa até chegar à garrafa permite ao visitante compreender, ainda que de maneira superficial, a complexidade envolvida na elaboração de um vinho.

No caso da Altopiano, o projeto trabalha atualmente com microvinificações e uma produção anual de aproximadamente 10 mil garrafas, distribuídas em um portfólio de 16 produtos. A vinícola possui dois anos de receptivo aberto e comercializa seus vinhos há três anos.

Um dos exemplos de experimentação foi a elaboração de um vinho a partir da variedade Sagrantino di Montefalco. O primeiro resultado produtivo da variedade nos vinhedos da empresa totalizou 130 quilos de uvas. A partir desse volume, a expectativa é chegar a aproximadamente 90 garrafas do vinho.

“Foi uma experiência. Fizemos uma experiência em uma variedade chamada Sagrantino di Montefalco, que é uma variedade de origem italiana, e tivemos o primeiro resultado produtivo em nossos vinhedos, que deu um total de 130 quilos. Um volume extremamente pequeno”, relata.

Durante o processo, clientes que estavam no espaço de receptivo foram convidados a acompanhar de perto a experiência, conhecendo uma elaboração realizada em escala muito reduzida.

Uma produção construída em pequenas quantidades

Edson explica que a Altopiano ainda não possui uma estrutura própria completa de vinificação. A cantina faz parte de um projeto futuro, enquanto a empresa segue utilizando estruturas de terceiros para a elaboração dos vinhos.

Segundo ele, essa é uma prática comum no setor, especialmente diante do investimento necessário para a implantação de uma estrutura completa de processamento.

“A cantina faz parte de um projeto futuro, mas, como existem outras obras acontecendo, ela está para um segundo momento”, afirma.

Para o enólogo, essa dinâmica também permite que empresas com estruturas maiores otimizem seus espaços e que projetos menores consigam elaborar seus produtos.

Edson ressalta ainda que o trabalho de criação de um vinho não parte exclusivamente do enólogo. A definição do produto começa com a visão dos proprietários e passa pela interpretação técnica e pela qualidade da matéria-prima disponível.

“Todo mundo fala assim: a criação é do enólogo. Não, a criação é dos proprietários. Os proprietários dão a ideia de que produto eles esperam. O dever do enólogo é criar produtos que vão ao encontro do que os proprietários idealizaram, a partir da matéria-prima oferecida”, explica.

Indicação geográfica e reconhecimento

Outro aspecto abordado pelo enólogo foi a importância da Indicação Geográfica para os vinhos produzidos na região de altitude. Para ele, o selo ajuda o consumidor a identificar que o produto segue determinados critérios e normas de produção.

“O selo de Indicação Geográfica é algo muito imponente que está sendo construído já há algum tempo aqui na região dos vinhos de altitude. Ele é de extrema importância para que prove, de alguma forma, para o cliente, principalmente para os leigos, que aquele vinho respeita uma série de normas”, explica.

Entre os critérios mencionados por Edson está a exigência de que os vinhedos estejam a mais de 900 metros de altitude para que o produto seja caracterizado dentro da especificação dos vinhos de altitude.

As premiações também aparecem como forma de reconhecimento do trabalho desenvolvido por toda a cadeia produtiva, desde a escolha do terreno e das variedades até o cultivo, a vinificação e a chegada do produto ao consumidor.

Para Edson, porém, a construção de um vinho de identidade regional ainda está em processo de aprendizado. A vitivinicultura da Serra Catarinense possui poucas décadas de desenvolvimento, enquanto a cultura do vinho tem milhares de anos de história.

“20, 25, 30 anos de história, que é o que nós temos, nos remetem a muitas dúvidas ainda a respeito de que forma operar. A cultura da uva, a cultura do vinho é algo milenar. Então, 30 anos de história não é nada nesse contexto”, avalia.

A relação entre o técnico e o comercial

Na visão do enólogo, o desenvolvimento de novos produtos depende de uma relação próxima entre as áreas técnica e comercial. Enquanto o conhecimento técnico permite identificar as possibilidades de elaboração a partir da matéria-prima disponível, o mercado ajuda a direcionar quais produtos e estilos podem ser desenvolvidos.

“Eu acho que isso é a receita do sucesso: uma relação boa entre o departamento comercial e o técnico”, afirma.

Para Edson, essa integração permite criar produtos que tenham identidade e, ao mesmo tempo, estejam alinhados às expectativas do público.

Assista a entrevista completa:


Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.