Uva Goethe e tradição vitivinícola moldam a identidade de Urussanga
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Durante entrevista concedida ao programa Estúdio de Inverno, na tradicional Vinícola Mazón, localizada na comunidade de São Pedro, em Urussanga (SC), a anfitriã e representante da família fundadora do empreendimento, dona Giselda Trento Mazon, compartilhou relatos sobre o passado, o presente e os desafios enfrentados ao longo da trajetória da vitivinicultura local.

Com grande propriedade e memória detalhada, dona Giselda traçou um panorama histórico da produção de vinho em Urussanga, destacando o papel da uva Goethe, variedade que se tornou símbolo da região e que, por muitos anos, figurou entre os vinhos preferidos do então presidente Getúlio Vargas. A bebida feita a partir dessa uva era servida em ambientes nobres como o Palácio do Catete e o Copacabana Palace, além de representar o Brasil em festivais internacionais.

Segundo a entrevistada, o crescimento da mineração de carvão nos arredores contribuiu para o declínio da vitivinicultura no município, com muitos colonos abandonando as plantações para trabalhar nas minas, em busca de estabilidade e aposentadoria precoce. Essa mudança de cenário resultou no fechamento de diversas vinícolas históricas da cidade.

Após o falecimento precoce de seu marido, Genésio Mazon, idealizador do projeto e nome que hoje batiza uma rodovia local, coube à própria Giselda, com apoio da filha Patrícia Mazon, manter vivo o legado da família. Professora de formação, ela assumiu a responsabilidade de continuar o empreendimento mesmo sem experiência prévia no setor.

Patrícia, por sua vez, retornou a Urussanga após concluir o mestrado em História Econômica e passou a atuar com turismo rural, unindo forças com o esposo, especialista na área. Juntos, decidiram transformar a propriedade da família também em um espaço de enoturismo.

A entrevista ainda destacou o papel da EPAGRI (antiga CARESC), instituição responsável por desenvolver projetos de pesquisa sobre clima, solo e produtividade na região, contribuindo tecnicamente para a obtenção da Denominação de Origem (DO) para a uva Goethe, reconhecimento conquistado em 2012, o primeiro de Santa Catarina e o terceiro do Brasil.

Dona Giselda explicou com clareza didática conceitos como terroir e os diferentes métodos de produção do vinho, frisando o papel da dedicação manual no processo do espumante, elaborado pelo método champenoise. Enfatizou também as especificidades da uva Goethe, desde sua delicadeza até sua doçura e aroma únicos.

A anfitriã relatou ainda memórias de infância, como quando ela e a irmã corriam atrás dos carros de boi carregados de uvas perfumadas que atravessavam o centro de Urussanga. Também mencionou a criação da associação ProGoethe, formada por pequenos produtores e coordenada com o apoio técnico do Sebrae e da Universidade Federal de Santa Catarina, com o objetivo de preservar e promover a uva Goethe.

Atualmente, a Vinícola Mazón integra um complexo turístico, o Vinha Mazón, que abriga eventos como casamentos e formaturas, além de oferecer vivências na colheita e produção do vinho, com atividades interativas para os visitantes, como a tradicional pisa da uva.

A entrevista com dona Giselda não apenas recupera a história da vitivinicultura em Urussanga, mas também reforça o valor cultural, econômico e afetivo de um produto típico que resistiu ao tempo graças à persistência de famílias comprometidas com suas raízes. Ao final da conversa, ela se colocou à disposição para receber quem quiser ouvir, como ela própria define, suas muitas histórias.