Bom Jardim da Serra, na região serrana de Santa Catarina, abriga uma história de empreendedorismo marcada pela tradição e pela inovação. Há mais de quatro décadas, o criador de um dos mais tradicionais açougues do município deu início a uma trajetória que viria a transformar o modo de comercializar e consumir carne na região.
A experiência de João Nazareno Pacheco de Souza nesse ramo teve início ainda na adolescência, quando começou a trabalhar com carne aos 14 anos. Inspirado pelos produtos coloniais que seu pai vendia em um quiosque, como maçã, queijo, mel e pinhão, decidiu criar algo que pudesse atrair os turistas que visitavam a cidade.
Foi assim que nasceu o frescal: uma carne salgada artesanalmente, com menor teor de sal que o tradicional charque, desenvolvida para consumo mais prático e com sabor mais suave.
O frescal, preparado com cortes nobres como alcatra, maminha, picanha e contrafilé, tornou-se uma alternativa ao charque, mais salgado e com longa duração. O novo produto, feito manualmente, passou a ser vendido para turistas em um pequeno quiosque, ainda em meados da década de 1980. O sucesso foi tanto que a iniciativa familiar cresceu, resultando na criação de um espaço próprio, com estrutura ampliada, dando origem ao Empório das Carnes, localizado no centro de Bom Jardim da Serra.
O estabelecimento passou a comercializar tanto o frescal quanto o charque, além de carnes frescas de gado criado na região. A procedência dos animais, oriundos de rebanhos europeus alimentados em pastagens nativas, garante à carne um sabor diferenciado e textura macia, especialmente valorizada por clientes que buscam qualidade e autenticidade. A chamada “graxa amarela”, característica da gordura desses animais, é um dos indicativos de excelência para os profissionais da área.
O empório produz, em média, de 200 a 300 quilos de carne por semana, quase uma tonelada por mês, com produtos embalados a vácuo e inspecionados, garantindo segurança alimentar. Entre os destaques do cardápio estão cortes como costela, picanha e alcatra, além de embutidos artesanais, como linguiça recheada com costela e matambre.
Apesar de manter técnicas tradicionais, o negócio não parou no tempo. Com o crescimento da cidade como destino turístico de inverno, os produtos ganharam visibilidade, sendo procurados por visitantes de diferentes partes do país, incluindo estados distantes como o Pará. Muitos chegam ao Empório das Carnes com indicações de amigos ou familiares, reforçando a importância do “boca a boca” como ferramenta de divulgação.
O sucesso do empreendimento também passa pela experiência acumulada ao longo de anos de atuação. Aos 15 anos, o responsável já carneava sozinho, em um tempo em que o fornecimento de carne dependia de abates locais. Hoje, a carne utilizada no empório é fornecida por frigoríficos da região, especialmente de Orleans, com rigoroso controle de qualidade.
Na etapa final de sua jornada profissional, João Nazareno deixou a atividade nas mãos dos filhos, que atualmente conduzem o negócio. Ele, por sua vez, pendurou a faca e acompanha com orgulho a continuidade de um legado construído com dedicação, conhecimento e respeito às origens da culinária serrana.
Em uma região marcada por temperaturas rigorosas e paisagens deslumbrantes, o frescal e os produtos do Empório das Carnes tornaram-se parte da identidade local, conectando a tradição familiar ao turismo em expansão. O resultado é um empreendimento que preserva o sabor da Serra Catarinense e reforça a vocação de Bom Jardim para acolher quem chega em busca do melhor da gastronomia e da cultura regional.






