Bisneto, neto e filho de produtores rurais, o oftalmologista Dr. Telmo Inácio Palma Souza carrega a pecuária no sangue, mas encontrou no vinho uma forma de unir tradição familiar e uma nova paixão. Nascido na região do Monte Alegre, em São Joaquim, ele é hoje o idealizador e proprietário da Quinta das Araucárias, vinícola que nasceu de uma promessa antiga feita ainda por seu pai.
As origens no campo e o caminho até a medicina
Filho de produtores que sempre trabalharam com pecuária, Telmo seguiu a orientação do pai, que insistia para que os filhos estudassem sem esquecer as raízes: “Vocês são do campo, mas não esqueçam as origens e vão estudar.” Foi assim que ele deixou São Joaquim rumo a Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde se formou em medicina pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
Foi na convivência com a comunidade italiana da região, segundo ele, “um povo trabalhador, um povo alegre e grandes tomadores de vinho”, que nasceu seu encantamento pela bebida, um gosto que já era, de certa forma, herdado do pai, apreciador de vinho e de antigos pés de uva que cresciam nas taperas da propriedade da família.
O sonho do pai e o início do vinhedo
Foi ainda em casa, ouvindo o pai comentar sobre plantar uvas ao lado de “um casal de italianos”, que a ideia da vinícola começou a amadurecer na cabeça de Telmo. A oportunidade surgiu por volta de 1998–2000, quando começaram os primeiros plantios de vinhas na região, impulsionados por pesquisas da Epagri e pela chegada de empresários de fora com experiência no setor.
Movido por esse cenário, Telmo comprou, em 2006, suas primeiras videiras de um viveiro francês, o de Jacques Bourguet, produtor próximo à região de Nice, na França, que posteriormente visitou São Joaquim para conhecer como estava sendo conduzido o plantio na região.
Na época, foram adquiridas cerca de 600 mudas de Chardonnay, 400 de Pinot Noir e 3.500 de Cabernet Sauvignon, as variedades disponíveis no momento. “Não tínhamos experiência. Falei: olha, temos que começar com alguma coisa, vamos começar com essas varietais que estão disponíveis”, relembra.
Indicação geográfica e o consumo de vinho no Brasil
Os vinhos da Quinta das Araucárias carregam o selo de Indicação de Procedência dos Vinhos de Altitude de São Joaquim, atestado que certifica que a produção segue critérios técnicos determinados para vinhos da região. Segundo Telmo, o selo vale para todas as vinícolas que atendem a esses critérios, não apenas para a sua propriedade.
Sobre o mercado, ele observa que o consumo médio de vinho no Brasil ainda é baixo, cerca de duas garrafas e meia por habitante ao ano, mas que o país tem registrado crescimento no consumo, na contramão de uma retração observada em outras partes do mundo.
Para Telmo, os vinhos de São Joaquim já nascem em vantagem em relação a regiões vinícolas mais tradicionais, como as do Rio Grande do Sul: “Nós já começamos com uvas de muita qualidade, uvas viníferas de renome mundial. […] O pessoal já começou, como diz o ditado, na prateleira de cima.”
Apesar dos bons resultados obtidos por vinícolas vizinhas em concursos nacionais e internacionais, a Quinta das Araucárias ainda não participa dessas competições. Segundo Telmo, o motivo é a conciliação da vinícola com as demais atividades da família, pecuária de gado charolês (raça introduzida na região pelo pai dele em 1944, vinda do Rio Grande do Sul), criação de ovelhas Ile-de-France, produção de maçã e pera, além da própria rotina profissional: aos 50 anos de carreira em oftalmologia, ele segue atendendo pacientes, ainda que com menor frequência.
O desafio da mão de obra
Um dos principais entraves para a expansão da vinicultura na região, segundo Telmo, é a escassez de mão de obra. Ele relata que trabalhadores da própria São Joaquim praticamente desapareceram da atividade rural, e que a vinícola hoje depende de mão de obra eventual vinda do Maranhão e de Pernambuco.
O problema se agrava porque a safra da uva coincide, entre março e maio, com a safra da maçã, atividade de maior escala na região, o que gera disputa direta pelos trabalhadores disponíveis. “É uma briga com os fruticultores pela disputa de mão de obra”, resume.
Assista a entrevista completa:
Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.






