Pioneira dos vinhos de altitude, Quinta da Neve tem Pinot Noir entre os dez melhores do mundo e Touriga Nacional campeã na Itália
Foto: Divulgação/ UNITVSC

Em 1999, quando a Quinta da Neve plantou suas primeiras videiras em São Joaquim, pouca gente acreditava que a Serra Catarinense poderia produzir vinhos finos de qualidade. Quase três décadas depois, a vinícola acumula premiações internacionais, ajudou a consolidar a indicação geográfica dos vinhos de altitude e se tornou referência para as cerca de 30 vinícolas que hoje operam na região. À frente do projeto está a enóloga Bettina de Bem, doutora em viticultura e enologia, nascida e criada na Serra.

“O bichinho do vinho me picou e não consegui mais largar”, brinca Bettina, que começou a trabalhar no setor ainda na graduação em agronomia, quando um professor da Universidade Federal a apresentou ao laboratório de elaboração de vinhos da região, em 2006.

De lá para cá, fez mestrado, doutorado, morou um ano na Itália, na região do Trentino-Alto Adige, para desenvolver pesquisas em um dos mais importantes institutos vitivinícolas do país, e voltou para a Serra para continuar o trabalho que, segundo ela, nunca imaginou trocar por outro. “Me sinto muito sortuda de ter encontrado uma profissão que traz tanta alegria. A enologia me escolheu e sou muito realizada com isso.”

O que é terroir e por que ele importa tanto

Uma das palavras mais usadas no mundo do vinho, o terroir, vai muito além do significado literal do francês, que seria simplesmente “terreno” ou “território”. Para Bettina, o conceito engloba tudo que influencia a produção de uma uva e de um vinho em determinado lugar.

“O terroir que a gente fala no mundo do vinho é o lugar onde você está: a altitude, o clima, as condições do solo, a acidez, a pedra mãe, que aqui é o basalto. Tudo isso vai interferir na produção. Mas vai além: inclui também o saber fazer das pessoas que estão lá elaborando o vinho, dos funcionários que colhem a uva, a enologia, como é processado esse vinho. Tudo isso engloba o terroir”, explica.

Em São Joaquim, a altitude, geralmente acima de 1.300 metros, é um dos fatores que mais diferencia a produção local. O frio intenso favorece o acúmulo natural de açúcar nas uvas, sem necessidade de chapitalização, a prática de adicionar açúcar artificialmente para aumentar o teor alcoólico.

“Pela altitude e pelas características do nosso terroir, a gente sempre acumula uma quantidade grande de açúcar para ter o álcool que a gente acha interessante. O que vem do campo já é suficiente para garantir a qualidade”, afirma.

Das variedades francesas às portuguesas e italianas

A Quinta da Neve começou com as variedades que foram pioneiras na região: Cabernet Sauvignon, Merlot e Sauvignon Blanc. Com o tempo, a vinícola incorporou castas portuguesas, como a Touriga Nacional e a Alvarinho, graças à consultoria do enólogo português Anselmo Mendes, que ajudou a desenvolver o projeto nos primeiros anos. Mais tarde, vieram também variedades italianas, como Montepulciano e Sangiovese, que se mostraram bem adaptadas ao terroir serrano.

O Sauvignon Blanc é um dos vinhos mais apreciados da vinícola e vai ao mercado no mesmo ano da colheita, colhido em fevereiro, é comercializado por volta de setembro ou outubro. “É um vinho bem leve, bem fresco, sempre o vinho do ano. Quanto mais perto da colheita você degustar, melhor”, conta Bettina.

Já os tintos encorpados, especialmente os que passam por barrica de madeira, podem levar três ou quatro anos para estar prontos para o mercado, e alguns ganham qualidade ao longo de décadas mesmo depois de engarrafados. “Nossos vinhos tintos são muito longevos. Tem vinhos de 10, 15 anos que você pode manter em casa e degustar no ponto ótimo de degustação”, explica.

Prêmios que colocaram a Serra no mapa mundial

Dois momentos marcam a história da Quinta da Neve em termos de reconhecimento internacional. O primeiro foi em 2010, quando o crítico de vinhos Jorge Lucki colocou o Pinot Noir da vinícola entre os dez melhores do mundo, uma classificação que chamou a atenção global para a Serra Catarinense. “Foi um marco histórico. O pessoal começou a pensar: estão fazendo vinho de qualidade nessa região”, lembra Bettina.

O segundo chegou em 2023, quando a Touriga Nacional da Quinta da Neve foi enviada a um concurso na Itália e, entre mais de 400 vinícolas europeias, sagrou-se campeã geral, com a nota mais alta de todo o concurso, conquistando o duplo ouro. “A gente esperava ganhar um ouro, mas ter a maior nota do concurso inteiro foi algo que não esperávamos mesmo. Foi um orgulho enorme”, conta.

Nomes com história: Leão Baio e Lomba Seca

Entre os rótulos da Quinta da Neve, o Leão Baio se destaca pela proposta diferente: um vinho mais descontraído, pensado para quem está começando a explorar o universo dos vinhos finos. O nome é uma homenagem ao puma, também chamado de leão-baio, animal que habita a região onde a vinícola está instalada, na localidade de Lomba Seca. “É uma homenagem a esse animal e à nossa região. E virou um case de sucesso”, conta Bettina. Já o rótulo Lomba Seca leva o nome da própria localidade, reforçando a ligação com o terroir.

O desafio da mão de obra

Um dos maiores entraves para o crescimento do setor vitivinícola na Serra Catarinense é a escassez de mão de obra qualificada. Com uma população pequena e distante dos grandes centros, a região enfrenta dificuldades para suprir a demanda crescente das vinícolas, tanto no campo quanto na produção e no enoturismo.

“É um entrave grande que a gente escuta em vários setores, mas para nós é especialmente crítico. Cada vez mais vinícolas e precisando de mais pessoas para trabalhar. E a nossa serra é um pouco distante de polos grandes”, reconhece Bettina.

Ela aponta o curso de enologia do Instituto Federal, no Campus Urupema, como uma iniciativa importante para a formação de profissionais na região, mas reconhece que ainda é insuficiente para atender à demanda em crescimento.

Confira a entrevista completa:


Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.