Quando os avós de Marcos Hiragami deixaram o Japão e vieram para o Brasil, trouxeram na bagagem a disciplina, o respeito pela terra e o hábito de trabalhar com as próprias mãos. Não trouxeram, é claro, nenhuma experiência com viticultura. Mas a Serra Catarinense, com seu frio intenso, sua altitude e seu solo vulcânico, fez o resto.
Hoje, a Vinícola Hiragami é um dos casos mais singulares do vinho brasileiro: uma família de descendência japonesa produzindo vinhos de altitude em São Joaquim, com identidade própria e reconhecimento nacional.
“A minha família veio do Japão. Os meus avós foram para o Paraná primeiro, depois vieram para São Joaquim. Aqui eles trabalharam com maçã, com alho, com outras culturas da região. A vinha veio depois, quando o meu pai viu o potencial que a região tinha para o vinho”, conta Marcos.
A transição para a vitivinicultura não foi imediata. A família foi observando o movimento das primeiras vinícolas que surgiam na região nos anos 2000 e, aos poucos, foi se convencendo de que aquele terroir tinha algo especial. “Foi um processo. A gente foi vendo o que estava acontecendo ao redor, foi estudando, foi conversando com quem já estava produzindo. E chegou um momento em que decidimos entrar”, recorda Marcos.
A influência japonesa na produção
Quem conhece a cultura japonesa sabe que alguns valores são centrais: precisão, paciência, respeito pelo processo e busca constante pela melhoria. Na vinícola, esses princípios se traduzem em uma abordagem cuidadosa em todas as etapas, do manejo do vinhedo à elaboração do vinho.
“A influência japonesa está muito no cuidado, na atenção aos detalhes. A gente não tem pressa. Se o vinho precisa de mais tempo, ele fica mais tempo. Não existe atalho”, afirma Marcos. Essa mentalidade se reflete especialmente nos vinhos que passam por períodos mais longos de envelhecimento, onde a paciência é literalmente um ingrediente.
O nome da vinícola carrega essa identidade de forma explícita. Hiragami é o sobrenome da família, e mantê-lo no rótulo foi uma escolha consciente. “A gente queria que ficasse claro quem está por trás do produto. É uma vinícola de família, com nome de família. Isso tem um significado para nós”, explica.
O terroir de São Joaquim
A propriedade da Vinícola Hiragami fica em São Joaquim, acima de 1.300 metros de altitude, em uma área com solo de origem basáltica, característico da Serra Catarinense, e exposição favorável ao sol durante o período de maturação das uvas.
Para Marcos, a altitude é o elemento que mais diferencia os vinhos produzidos na região. “Aqui a gente tem noites muito frias e dias com boa luminosidade. Isso faz com que a uva amadureça devagar, acumulando açúcar e preservando a acidez ao mesmo tempo. É essa combinação que dá frescor e longevidade aos nossos vinhos”, explica.
Entre as variedades cultivadas estão Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, com foco nos tintos encorpados que melhor expressam o terroir local. A vinícola também trabalha com espumantes, segmento que tem crescido na Serra Catarinense nos últimos anos.
Premiações e enoturismo
A Hiragami já conquistou medalhas em concursos nacionais, reconhecimento que Marcos vê como uma validação do trabalho, mas não como objetivo final. “Os prêmios são importantes porque mostram que o que a gente está fazendo tem qualidade. Mas o que realmente importa é quando a pessoa abre uma garrafa, prova e volta para comprar mais”, diz.
O enoturismo é uma das apostas da vinícola para os próximos anos. A propriedade recebe visitantes para conhecer os vinhedos e participar de degustações, com a história da família japonesa em São Joaquim como pano de fundo. “Quando as pessoas ficam sabendo da história da nossa família, se surpreendem. É uma história diferente, e o vinho conta um pouco dessa história”, afirma Marcos.
O futuro da Serra Catarinense
Para Marcos, a Serra Catarinense está apenas no começo de sua trajetória como região vitivinícola de destaque. “A gente tem terroir, tem dedicação, tem história. O que falta é o mundo conhecer melhor o que está sendo feito aqui. Mas isso está mudando”, avalia.
Ele também destaca a importância da união entre as vinícolas da região para fortalecer a indicação geográfica e promover o destino como um todo. “Não adianta cada um trabalhar sozinho. Quando a Serra Catarinense cresce, todo mundo cresce junto”, conclui.
Assista a entrevista completa:
Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.






