A paixão pela vitivinicultura começou ainda na juventude e atravessou décadas até se transformar em um projeto familiar na Serra Catarinense. Proprietário da Vinícola Villaggio Conti, Humberto Conti construiu sua trajetória no mundo dos vinhos a partir da ligação com as raízes italianas da família e de uma experiência acadêmica que o levou até a Itália.
Engenheiro de alimentos, Conti fez mestrado em fermentação em Milão, na Itália, após receber uma bolsa do governo italiano. Foi durante esse período que teve contato mais próximo com a história da família e com a produção de vinhos no país de origem de seus antepassados.
“Eu fui conhecer a propriedade que meu nono tinha lá no Vêneto. Quando eu cheguei, vi que ele tinha um pequeno vinhedo, a história dele ali. E aí o vinho entrou na minha vida”, contou.
A experiência foi além dos estudos. Durante os três anos em que viveu na Itália, Conti acompanhou vindimas e teve contato com diferentes regiões produtoras. Ao longo dos anos, também visitou outros locais ligados à produção de vinhos e chegou a morar na Inglaterra. Segundo ele, foram cerca de 45 anos dedicados ao universo da bebida.
A relação com o vinho acabou se transformando em um projeto de vida e, posteriormente, em um legado familiar. Atualmente, um dos filhos de Conti segue os passos do pai e está concluindo a formação em Enologia. Ele já assumiu a condução dos vinhedos e dos vinhos, enquanto Humberto passou a atuar mais como consultor. A concepção dos produtos, no entanto, continua sob sua responsabilidade.
Um legado de castas italianas
A escolha das variedades cultivadas na propriedade segue uma filosofia bastante definida. Desde o início do projeto, Conti decidiu trabalhar exclusivamente com castas italianas, como forma de manter uma ligação direta com as origens da família e com a própria identidade da vinícola.
“Não basta o nome. Tem que ter o legado na plenitude”, afirmou.
Entre as variedades escolhidas estão uvas como Montepulciano, Sangiovese, Pignolo e Ribolla Gialla. Algumas delas ainda são pouco comuns na produção nacional, o que contribui para a identidade dos vinhos elaborados pela Villaggio Conti.
Conti conta que duas variedades, Pignolo e Ribolla Gialla, foram trazidas para a propriedade por uma relação pessoal com os vinhos produzidos a partir dessas uvas.
“Essas duas, independente da ficha técnica, eu traria por amor, por paixão, porque eu adoro esses dois vinhos”, relatou.
A Montepulciano também ocupa um espaço especial no projeto. Para Conti, a variedade italiana encontrou boas condições de adaptação na Serra Catarinense e pode ganhar ainda mais importância no futuro.
“Eu fui pioneiro, eu e a Leone de Veneza, que são duas vinícolas especializadas em castas italianas”, afirmou.
O desafio de produzir vinho em altitude
A propriedade da Villaggio Conti está inserida no terroir de altitude da Serra Catarinense, característica que, segundo o produtor, contribui para a qualidade e a identidade dos vinhos, mas também aumenta os desafios de produção.
A altitude proporciona uma amplitude térmica significativa, com variações entre as temperaturas do dia e da noite. Para Conti, essa condição contribui para um ciclo mais longo de maturação das uvas.
Por outro lado, a produção enfrenta riscos climáticos, como geadas e granizo, além de dificuldades relacionadas à implantação e manutenção dos vinhedos.
“Aqui é um terroir de risco, por estar na altitude, nós enfrentamos as intempéries, como geada e granizo. Mas, quando dá tudo certo, eu tenho certeza de que estamos entre os melhores vinhos do Brasil”, destacou.
O produtor também chama atenção para os custos envolvidos na implantação dos vinhedos na Serra Catarinense. Segundo ele, o investimento pode ser significativamente maior do que em outras regiões produtoras, devido às características do terreno, à necessidade de retirada de pedras e à dificuldade de encontrar áreas planas.
A mão de obra é outro desafio apontado por Conti. Para ele, o desenvolvimento da cultura do vinho na Serra Catarinense passa também pela formação de profissionais especializados.
“Nós não podemos tratar um colaborador aqui como um simples colaborador de campo. Ele sempre tem que ter uma especialização. Então, a gente tem que investir na formação e pagar um pouco mais”, explicou.
Da propriedade adquirida em 2009 aos vinhos premiados
Conti adquiriu a propriedade onde está a vinícola em 2009. O projeto, que começou como um desejo pessoal de construir um legado ligado à família e às origens italianas, evoluiu para uma produção de vinhos de alta qualidade.
Atualmente, a vinícola trabalha com 18 rótulos, segundo o proprietário. O tempo entre a colheita e a chegada ao mercado varia conforme o estilo do vinho. Os brancos e alguns espumantes podem ser comercializados na mesma safra, enquanto determinados vinhos tintos podem levar de dois a três anos, dependendo do produto.
A qualidade, segundo Conti, é o principal foco da produção. Durante a pandemia, a demanda aumentou e a vinícola precisou antecipar a colocação de alguns produtos no mercado para atender ao consumo, sem renunciar aos padrões de qualidade estabelecidos.
O trabalho também rendeu reconhecimento em concursos nacionais. Conti afirma ter conquistado, por duas vezes, o título de melhor vinho tinto do Brasil com um dos seus rótulos, alcançando 95 pontos em uma escala de 100. Outro vinho da propriedade, elaborado com a variedade Ribolla Gialla, também recebeu o reconhecimento de melhor branco brasileiro na categoria de outras castas.
A escolha por trabalhar com variedades menos comuns no país é justamente um dos diferenciais da vinícola. Em vez de concentrar a produção nas uvas mais tradicionais do mercado brasileiro, como Chardonnay e Sauvignon Blanc, a Villaggio Conti aposta em castas italianas.
“Eu mando o meu portfólio todo. São 18 vinhos. Eu tive só dois abaixo de 90 pontos, tendo 89 e 88”, afirmou.
Apesar das premiações, Conti adota uma visão rigorosa sobre o que considera qualidade. Para ele, alcançar um bom padrão não deve ser visto apenas como uma conquista eventual, mas como uma obrigação de quem produz vinho.
“Se a gente perder o foco em qualidade, a gente não sai do lugar”, declarou.
Vinho como paixão e legado
A trajetória de Humberto Conti é marcada pela relação entre a produção de vinhos e a história familiar. A própria escolha do nome Villaggio Conti representa essa conexão. Em italiano, “villaggio” remete a uma pequena vila, enquanto Conti é o sobrenome da família.
Mais do que ampliar a produção, o objetivo do projeto é preservar uma identidade. A propriedade atualmente possui seis hectares de vinhedos, com previsão de chegar a oito, segundo Conti.
A ideia é manter uma produção de menor escala, com atenção aos detalhes e foco na qualidade dos vinhos elaborados a partir de castas italianas.
“Quem quiser fazer um negócio que não tem amor no meio, faça qualquer um para ganhar dinheiro. Mas, para fazer vinho, tem que ter amor no que está fazendo”, afirmou.
É essa combinação entre conhecimento, raízes familiares e dedicação à vitivinicultura que sustenta o trabalho da Villaggio Conti. Para Humberto, a produção de vinho na Serra Catarinense ainda está construindo sua própria tradição, mas já apresenta resultados capazes de colocar a região em destaque no cenário nacional.
“Eu espero que o vinho seja mais reconhecido pela qualidade aqui no estado de Santa Catarina. E esse é o nosso trabalho”, concluiu.
Confira a entrevista completa:
Esta reportagem faz parte do Estúdio de Inverno 2026, projeto dos veículos UNITVSC, portais Notisul e UNITV de Tubarão, Litoral Sul, NotíciasSC e Destaque Santa Catarina de Criciúma, e rádios Jovem Pan News de Criciúma, Araranguá e Tubarão.






